Nirvana Lado-B

Porque Nirvana vai além de Nevermind e "Smells Like Teen Spirit"
Urusei Yatsura lança box de raridades 1993 a 2000

A memória afetiva por trás da Urusei Yatsura e o seu baú de raridades

A memória afetiva por trás da Urusei Yatsura e o seu baú de raridades - imagem ilustrativa
A memória afetiva por trás da Urusei Yatsura e o seu baú de raridades

Tem discos que a gente descobre em momentos decisivos. Às vezes, um amigo aparece com uma capa estranha na mão, coloca o vinil no prato e, sem aviso, muda a sua rota musical para sempre. Foi exatamente assim que o baixista da Urusei Yatsura, Gavin Dunbar, conheceu a banda que, anos depois, ele próprio viria a integrar e a ajudar a documentar em caixas de 수집.

A história começa com uma visita a um amigo chamado Ewan, lá pelos dezesseis anos de idade. Naquele dia, o da casa era território proibido para música séria, mas mesmo assim eles desceram e bateram nas peles de uma bateria. Foi a única vez, segundo o próprio Gavin, que ele de fato sentou diante de um kit de drums. Subindo as escadas depois da brincadeira, Ewan tinha outra surpresa guardada. Um LP recém comprado que, segundo ele, seria capaz de definir o gosto musical do amigo.

Esse tipo de memória afetiva é a essência do que se encontra dentro da caixa de raridades da Urusei Yatsura. Não se trata apenas de canções. Trata-se de momentos congelados no tempo, pedaços de fita que guardam o som de uma banda escocesa que fez barulho entre os anos 90 e o início dos 2000.

O que é a Urusei Yatsura e por que ela importa

O que é a Urusei Yatsura e por que ela importa - imagem ilustrativa
O que é a Urusei Yatsura e por que ela importa

Para quem não viveu o circuito independente do Reino Unido nos anos 90, o nome Urusei Yatsura pode soar estranho, com referência direta ao clássico mangá e anime japonês de Rumiko Takahashi. E foi justamente esse estranhamento que transformou a banda em objeto de culto.

Formada na cidade de Glasgow, ainda em 1991, a Urusei Yatsura surgiu em um cenário explosivo, ao lado de nomes como Bis, The Pastels, Teenage Fanclub, Mogwai e Belle and Sebastian. Era a era de ouro do que a imprensa britânica batizou de indie pop escocês ou, simplesmente, Cool Scotland. Os caras da banda traziam guitarras barulhentas, melodias doces e letras que passeavam entre o nonsense e a crítica social delicada.

O primeiro disco de estúdio, Urusei Yatsura, chegou em 1993, e logo de cara arrancou comparações ousadas. A mídia especializada, sempre com pressa, tratou de emparelhar a banda com gigantes do rock alternativo. Fez sentido. A herança de Nirvana e do grunge aparecia nas guitarras pesadas, mas filtradas por uma lente pop que lembrava os primeiros Pavement e a irreverência dos Sonic Youth.

Por isso, falar dessa caixa de raridades é também revisitar uma ponte invisível entre o peso do rock alternativo americano e a sensibilidade lo-fi britânica.

A caixa de raridades de 2020: um raio X sonoro

No dia 7 de agosto de 2020, a banda anunciou a liberação de um verdadeiro tesouro para colecionadores e fãs de música alternativa. Estamos falando de uma caixa que reúne gravações feitas entre 1993 e 2000, um período que abrange praticamente toda a existência ativa do grupo.

O conteúdo é generoso. Estão ali lados B de singles, faixas de sessões de rádio, gravações ao vivo de clubes lendários, demos caseiras e até registros feitos em quartos de hotel durante as intermináveis turnês europeias. É o tipo de compilação que não se contenta em ocupar espaço na prateleira. Ela conta uma história.

Por que essas gravações demoraram tanto para ver a luz

Banda independente nos anos 90 não tinha o luxo do streaming. Tampouco existia a cultura de vault releases da era digital. As gravações se acumulavam em fitas cassete, mini discs e DATs, espalhadas entre os integrantes, produtoras e gravadoras pequenas. O resultado é que boa parte desse material ficou guardada por décadas, esperando o momento certo.

A pandemia de covid-19 também entrou nessa equação. Com shows cancelados e a indústria da música repensando seus formatos, relançar material histórico virou caminho viável para manter a chama acesa. A Urusei Yatsura aproveitou essa janela para reorganizar o arquivo e entregar ao público um retrato honesto da sua trajetória.

A influência do grunge e da geração Nirvana na sonoridade da banda

Aqui no nirvanaladob.com.br, a gente não ignora o óbvio. A Urusei Yatsura bebeu da fonte do rock alternativo pesado que explodiu com o Nevermind, de 1991. O vocalista Graham Kemp tinha uma entrega vocal que cruzava a linha entre o melódico e o rasgado, lembrando em alguns momentos a urgência crua de Kurt Cobain, mas sem repetir a fórmula.

Ao mesmo tempo, a banda soube construir uma identidade própria. As camadas de ruído eram mais meticulosas, as melodias mais açucaradas, e a attitude, embora barulhenta, vinha temperada com humor e lirismo que pareciam saídos de um quadrinho japonês.

Essa combinação fez com que a Urusei Yatsura fosse citada em diversas listas de bandas essenciais da Glasgow Scene, ao lado de nomes que marcaram época. Para os fãs de Nirvana, mergulhar nesse catálogo raro é descobrir um parente distante, alguém que falava a mesma língua, mas sussurrando em vez de gritar.

As faixas que resumem a experiência da caixa

Entre as gravações reunidas, algumas merecem destaque. As versões alternativas de singles conhecidos mostram como a banda retrabalhou suas próprias canções até alcançar a forma final. As faixas ao vivo capturam a energia crua de um público pequeno, fiel e atento, típico dos clubes de Glasgow e Edimburgo nos anos 90.

Tem também material que nunca tinha sido mixado profissionalmente. São registros caseiros, com qualidade irregular, mas carregados de verdade. Em tempos de produção super polida, ouvir esse tipo de faixa é quase um ato político, um lembrete de que a música nem sempre precisa ser perfeita para ser inesquecível.

O legado da Urusei Yatsura para o indie contemporâneo

Passados mais de vinte anos do fim das atividades da banda, o efeito da Urusei Yatsura ainda pulsa. Bandas novas continuam citando seu nome como influência. Selos independentes da Escócia tratam o grupo como marco fundador da cena local. E iniciativas como essa caixa de raridades mostram que a história não fica parada.

Para quem está começando a explorar o lado menos óbvio do rock alternativo, esse é um excelente ponto de entrada. A caixa funciona como porta para uma era em que a guitarra ainda era o instrumento mais perigoso do quarto de um adolescente.

Considerações finais sobre um tesouro para os fãs

Em um cenário musical saturado de lançamentos digitais descartáveis, projetos como esse nos lembram da importância do arquivo, do cuidado com o detalhe e do respeito ao fã que acompanha a banda há décadas. Relembrar o momento em que um amigo colocou um LP na vitrola e mudou sua forma de ouvir música é também reconhecer que, por trás de toda gravação rara, existe uma história humana esperando para ser contada.

A Urusei Yatsura deixou sua marca. E agora, com essa caixa de raridades, nos convida a revisitar cada passo dessa jornada com a sensibilidade e o capricho que ela merece.