Nirvana Lado-B

Porque Nirvana vai além de Nevermind e "Smells Like Teen Spirit"
Viva Negativa: o livro definitivo sobre The New Blockaders

Como o ruído absoluto se transformou em arte: a saga do The New Blockaders

Como o ruído absoluto se transformou em arte: a saga do The New Blockaders - imagem ilustrativa
Como o ruído absoluto se transformou em arte: a saga do The New Blockaders

Existe um tipo de beleza que nasce do caos, uma poesia feita de estática e fitas gravadas em looping infinito. Para quem acha que o silêncio é apenas ausência de som, o The New Blockaders surge como um soco filosófico na mesa. O grupo inglês, formado em 1982 em Sunderland, é uma das peças mais radicais, malucas e influentes da música industrial e do ruído contemporâneo. Eles não fazem música no sentido tradicional. Eles erguem um monumento ao nada, transformando o silêncio em barulho e o barulho em silêncio, num exercício que parece piada de teórico, mas que soa como um terremoto quando você coloca os fones de ouvido.

Para entender essa loucura toda, um novo livro acaba de chegar às prateleiras: "Viva Negativa! The New Blockaders: The Art of Noise and Nothing". A obra é o resultado de mais de cinco anos de pesquisa, entrevistas e imersão total no mundo hermético da banda. Escrito pelo australiano Clinton Green, o livro é a biografia definitiva de um coletivo que levou a ideia de anti-música ao seu limite extremo. Lançado pela PC-Press, o volume já se posiciona como um documento histórico obrigatório para qualquer pessoa fascinada pela cena underground.

A espera acabou: conheça "Viva Negativa!"

A espera acabou: conheça "Viva Negativa!" - imagem ilustrativa
A espera acabou: conheça "Viva Negativa!"

A capa do livro, as caixas chegando pelo correio, o cheiro de papel novo. Não tem jeito, para qualquer colecionador ou amante da música, ver um lançamento tão aguardado finalmente virando realidade é um momento de pura alegria. Clinton Green, que já é uma referência quando o assunto é a história do ruído como expressão artística, resolveu encarar de frente o mito dos New Blockaders. São anos de troca de cartas, fitas cassete enviadas pelo correio, entrevistas raríssimas e muita escuta atenta. O resultado é um livro denso, mas acessível, que consegue traduzir para o papel a essência sônica e visual de uma banda que quase nunca aparece em público.

A grande sacada do autor é não tentar explicar o The New Blockaders como uma banda de rock comum. Em vez disso, ele apresenta o grupo como o que realmente são: artistas conceituais, alquimistas do som, sabotadores da lógica musical. Ao ler Viva Negativa, você não encontra apenas uma timeline com datas de turnês. Você encontra um mapa mental de como o TNB pensa, cria e se recusa a ceder às pressões da indústria fonográfica.

Quem são os verdadeiros New Blockaders?

A fundação do The New Blockadores aconteceu em 1982, na cidade portuária de Sunderland, nordeste da Inglaterra. Diferente de outras bandas da cena industrial que buscavam batidas pesadas ou temáticas satânicas, os New Blockaders escolheram um caminho muito mais estranho. Influenciados por figuras como o francês Henri Chopin e o japonês Merzbow, eles decidiram que o objetivo era eliminar a música por completo, restando apenas o ruído puro.

O grupo é famoso por sua natureza cambiante. Membros vão e vêm, pseudônimos são usados como escudos, e a identidade do coletivo é tão fluida quanto os sons que eles produzem. Essa fluidez não é acidente, é estratégia. Para eles, a autoria é uma ficção, o artista é um conceito, e a obra existe apenas no momento da execução. Essa mentalidade ressoa forte com os debates sobre autoria, propriedade e significado que agitam o mundo da música até hoje, inclusive nas discussões sobre o legado do Nirvana e a forma como bandas de rock alternativas eram vistas pela mídia nos anos 90.

A estética do nada: por que o ruído importa

Para quem nunca ouviu uma música do The New Blockaders, a experiência pode ser um choque. Não espere refrões, versos ou melodias. O que você vai encontrar são ondas de estática, frequências graves que parecem furar o tímpano, chiados amplificados e loops de fita que desafiam qualquer noção de ritmo. Parece desagradável no papel, mas para os iniciados, essa imersão sonora é uma forma de meditação radical.

O conceito central do grupo gira em torno da ideia de ruído branco, silêncio ativo e destruição do (notas musicais). Eles acreditavam que a música ocidental havia se esgotado, virado repetição comercial, e que a única saída era o barulho. Esse pensamento, surgindo no início dos anos 80, ajudou a pavimentar o caminho para gêneros como o harsh noise, o power electronics e o drone. Bandas e artistas que vão do mainstream radical, como Trent Reznor do Nine Inch Nails, até o experimentalismo puro de Merzbow, devem algo a essa turma de Sunderland.

O ruído como filosofia

Clinton Green explora em Viva Negativa como o The New Blockaders não é apenas um projeto sonoro, mas uma espécie de movimento filosófico. O livro mergulha na relação entre o grupo e o dadaísmo, o situacionismo e o punk mais cru. Existe uma rebeldia profunda ali, uma recusa em participar do sistema da forma como ele foi desenhado. Ao produzir fitas cassete caseiras, edições limitadas em (plásticos improvisados) e capas com colagens que parecem ter sido feitas por um artista plástico em surto, eles se colocam completamente fora do circuito comercial.

Essa postura, aliás, tem tudo a ver com o ethos de bandas de rock alternativo que (nós também) admiramos. Quando Kurt Cobain e o Nirvana apareciam em programas de TV parecendo desconfortáveis, ou quando gravavam faixas com barulho de feedback no lugar de solos de guitarra virtuosos, havia ali uma vontade parecida com a dos New Blockaders: quebrar as regras do jogo. A diferença é que o Nirvana usou melodias pop para subverter o sistema, enquanto os New Blockaders usaram o barulho puro.

Por que você deveria ler "Viva Negativa!"

Se você chegou até aqui e ainda acha que música barulhenta é coisa de maluco, talvez seja hora de revisar seus conceitos. O livro de Clinton Green é mais do que uma biografia de banda, é um documento cultural que mostra como a arte precisa, às vezes, queimar as regras antigas para abrir caminho para o novo. Ler sobre o The New Blockaders é entender os bastidores de uma cena que influenciou sonoramente o rock dos anos 90, a música eletrônica experimental e até a estética lo-fi que domina a internet hoje.

O lançamento pela PC-Press, editora especializada em publicações raras e de vanguarda, garante que o livro tem o tratamento que o assunto merece. Edição caprichada, provavelmente com fotos de acervo, entrevistas exclusivas e aquela diagramação que já é marca registrada de livros de música independentes. Quem comprar, vai sentir que está segurando uma peça de colecionador.

O legado de uma banda sem rosto

O mais bonito de tudo isso é que o The New Blockaders conseguiu, sem aparecer em programas de TV, sem fazer turnês mundiais, sem vender milhões de discos, influenciar décadas de música. Eles provam que a arte não precisa de validação institucional para existir e prosperar. Seu legado vive nas mãos de cada artista que decide, hoje em dia, desafiar os padrões da indústria musical.

Viva Negativa é, portanto, um livro essencial para entender os cantos mais escuros da música experimental. Clinton Green fez um trabalho monumental de pesquisa, e nós, do blog nirvana-legacy.com.br, recomendamos a leitura para todos que enxergam a música como uma forma de arte viva, pulsante e infinitamente estranha. Se você curte rock alternativo, experimental, industrial ou simplesmente quer entender como o barulho virou uma linguagem, esse livro é a sua próxima obsessão.

Compre o seu exemplar, coloque noPlayer (toca-discos, na verdade, nem sei se é disco) e mergulhe no nada mais absoluto que a música já produziu.